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Carta do Gestor

Carta Mensal - Março 2026

  • 31 de mar.
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Gestão de Patrimônio

Em um cenário que exige cada vez mais leitura de mercado e disciplina na alocação, a Gestão de Patrimônio da Netz é liderada por Francisco Kops, CFA, com mais de 20 anos de experiência. À frente da estratégia, o gestor imprime consistência e visão de longo prazo às decisões.


O time é formado por Ewerton Leite - Portfolio Management, Anna Carolina Proença, CEA - Investor e Lucas Caumo, CFG - Gestão, atuando de forma integrada na construção de portfólios robustos e aderentes aos diferentes perfis de clientes.


Mais do que acompanhar o mercado, a área reforça o posicionamento da Netz com uma gestão técnica, criteriosa e orientada à geração de valor no tempo.


Um mercado com vetores concorrentes

Março foi um mês que deixou mais claro um ponto importante: o cenário deixou de ser guiado por uma única narrativa dominante.


A leitura que vinha predominando — crescimento desacelerando com inflação em queda — começou a perder força. No lugar dela, surgiu uma combinação mais difícil: atividade enfraquecendo e novas pressões inflacionárias aparecendo, principalmente via petróleo.


Esse tipo de ambiente é mais desafiador porque reduz a clareza de leitura. Sem uma narrativa dominante, os mercados deixam de andar em bloco e passam a reagir a múltiplos fatores ao mesmo tempo.

O resultado é um comportamento mais instável — e mais dependente de uma leitura fina de cenário.


Juros globais: o problema ficou mais difícil

Nos Estados Unidos, essa mudança de pano de fundo apareceu de forma clara na curva de juros.


A atividade começou a dar sinais mais consistentes de desaceleração. Ao mesmo tempo, a inflação segue longe de uma trajetória confortável. E, no meio disso, surge um novo elemento: a alta do petróleo.


O Federal Reserve passa a operar em um cenário mais ingrato. Cortar juros com inflação pressionada é arriscado. Não cortar com a economia desacelerando também é.


Esse dilema sempre existiu. Mas agora ele ficou mais complexo porque a origem da inflação mudou na margem.


O ponto central do mês: o petróleo

O movimento do Petróleo Brent ao longo de março não foi apenas mais um dado — ele passou a refletir uma mudança relevante no equilíbrio de risco do mercado.


O principal vetor continua sendo geopolítico.

O conflito no Oriente Médio completou um mês e, ainda que não tenha escalado de forma abrupta, passou a incorporar um risco mais persistente. O foco do mercado está no Estreito de Ormuz — por onde passa algo próximo de 20% do fluxo global de petróleo.


Não é necessário um bloqueio efetivo para impactar preços. Basta o aumento da percepção de risco para elevar custos de transporte, prêmios de seguro e incerteza logística. E foi exatamente isso que vimos ao longo do mês.


Ao mesmo tempo, há mudanças importantes na dinâmica de oferta.


A Rússia segue conseguindo escoar sua produção, mesmo sob sanções, principalmente via redirecionamento para Ásia (China e Índia). Isso cria um mercado mais fragmentado, com fluxos menos eficientes e maior custo implícito.


Além disso, houve liberação de reservas estratégicas por diversos países ao longo do período recente — um movimento que ajuda a suavizar choques de curto prazo, mas que não altera de forma relevante a capacidade estrutural de oferta global.


O ponto mais importante é que o mercado segue com pouca folga. A oferta marginal continua restrita, e a dependência de rotas críticas, como o Estreito de Ormuz, permanece elevada.

Reservas ajudam a ganhar tempo. Não resolvem o problema. E é justamente esse tipo de choque — que nasce do lado da oferta — que começa a colocar os bancos centrais em uma posição mais difícil.


A inconsistência que começa a aparecer

Se a inflação está sendo pressionada por um choque de oferta, qual é exatamente o papel dos juros aqui? Essa é uma pergunta simples — mas desconfortável.


Juros mais altos reduzem demanda. Freiam consumo, crédito, investimento. Mas não produzem petróleo, não resolvem conflitos geopolíticos e não destravam gargalos logísticos.


Ou seja, não atuam na origem do problema.


Na prática, o que os bancos centrais conseguem fazer é apenas conter os efeitos secundários. Evitar que o choque de energia se espalhe para outros preços, impedir desancoragem de expectativas e limitar efeitos de segunda ordem, principalmente em serviços e salários.


Até pode fazer algum sentido. Mas tem um custo claro.


Quando se reage a um choque de oferta com uma ferramenta de demanda, existe o risco de ir além do necessário. De apertar as condições financeiras o suficiente para desacelerar a economia — sem, no entanto, resolver a causa da inflação. E esse parece ser o ponto central hoje.


O banco central precisa agir para preservar credibilidade, mas, ao fazer isso, corre o risco de amplificar a desaceleração. É um equilíbrio mais fino, com menos margem de erro. E é exatamente nesse tipo de ambiente que costumam surgir os chamados erros de política monetária — não por diagnóstico incorreto, mas pela limitação do instrumento.


Mercados: juros no centro, ativos mais sensíveis

Nos Estados Unidos, os movimentos nos juros foram marcados por idas e vindas relevantes. Dias de leitura mais fraca de atividade puxavam os yields para baixo, enquanto surpresas de inflação — somadas à alta do petróleo — traziam rapidamente a curva de volta para cima.


O resultado foi uma dinâmica mais instável, sem uma tendência clara, mas com aumento de volatilidade — especialmente nos vértices mais longos. Essa instabilidade nos juros teve impacto direto sobre os demais ativos.


As bolsas, que vinham com um comportamento mais resiliente, passaram a mostrar perda de tração na margem. Mais do que uma queda generalizada, o que se observou foi um aumento relevante de dispersão: setores mais sensíveis a juros perderam força, enquanto temas estruturais ainda sustentaram parte do mercado.


Nos ativos alternativos, o comportamento também foi menos óbvio. O Ouro, que tradicionalmente atua como proteção, não teve uma resposta linear ao aumento de risco geopolítico e chegou a corrigir de forma relevante ao longo do período.


Isso sugere que, no momento, fatores como juros reais e liquidez global continuam tendo peso tão grande — ou maior — do que o próprio risco geopolítico na formação de preço.

Já o Bitcoin apresentou uma dinâmica mais instável ao longo do mês. A presença relevante de alavancagem no mercado segue amplificando movimentos, especialmente em momentos de correção.


Brasil: o mesmo dilema, com mais sensibilidade

No Brasil, o cenário segue construtivo na margem — mas também mais delicado do que parecia há algumas semanas.


Os dados mais recentes começaram a trazer uma leve inflexão. A inflação, que vinha surpreendendo positivamente, apresentou leituras um pouco mais pressionadas na margem. Nada que mude a tendência estrutural, mas o suficiente para interromper a sensação de conforto que o mercado começava a construir.



Ao mesmo tempo, os sinais de desaceleração da atividade seguem aparecendo de forma mais consistente. Crédito mais fraco, consumo perdendo tração e indicadores antecedentes apontando para um ritmo menor de crescimento ao longo do ano.


Ou seja, o Brasil começa a conviver com exatamente a mesma combinação que vemos lá fora: atividade mais fraca e uma inflação que deixa de cair de forma linear.


O Banco Central e o limite da política monetária

Nesse contexto, o desafio do Banco Central do Brasil fica mais complexo.


Assim como no cenário global, parte da pressão inflacionária recente está ligada a fatores que não são de demanda — especialmente commodities. E isso levanta a mesma questão: qual é o papel da política monetária diante de um choque de oferta?


Subir ou manter juros mais altos ajuda a conter efeitos secundários, mas não resolve a origem do problema. Não reduz preço de petróleo, não altera dinâmica externa e não melhora termos de troca.



Por outro lado, reagir de forma mais branda também tem custo. Existe sempre o risco de desancoragem de expectativas, especialmente em um país com histórico inflacionário mais sensível.


Dito isso, há um ponto importante. Se a natureza do choque é majoritariamente de oferta, a política monetária tem alcance limitado sobre sua causa. Nesse contexto, uma reação excessivamente conservadora pode acabar gerando um custo desproporcional em termos de atividade, sem ganhos relevantes no controle da inflação.


Na nossa visão, isso sugere que o processo de flexibilização monetária não deveria ser interrompido exclusivamente por esse tipo de choque. Pelo contrário, faz mais sentido que o Banco Central siga o ciclo já iniciado, calibrando o ritmo, mas reconhecendo que a origem da pressão inflacionária atual não está na demanda doméstica.


O Banco Central precisa, portanto, olhar não apenas o nível da inflação, mas a qualidade dessa inflação. O quanto ela vem de demanda — onde a política monetária é efetiva — e o quanto vem de choques externos — onde seu alcance é limitado.


Crédito: crescimento ainda presente, mas com sinais de inflexão

O mercado de crédito no Brasil segue em expansão, ainda que com sinais mais claros de moderação na margem.


O crédito ampliado ao setor não financeiro atingiu cerca de R$ 21 trilhões (163,7% do PIB), com crescimento de 11,8% em 12 meses, impulsionado principalmente pelo mercado de capitais — com destaque para a expansão de 18,5% nos títulos privados de dívida.



Em contrapartida, o crédito bancário tradicional já apresenta desaceleração mais evidente, especialmente no segmento corporativo. O crédito ampliado às empresas cresceu 5,8% em 12 meses, ritmo inferior ao observado no mercado de capitais, refletindo maior seletividade por parte das instituições financeiras.


No segmento de pessoas físicas, o crescimento segue mais resiliente, com o crédito livre avançando 12,6% em 12 meses, puxado principalmente por linhas como consignado e financiamento de veículos. Ainda assim, há sinais de menor tração em modalidades mais sensíveis à renda.


O crédito segue crescendo, mas com uma composição distinta — e com mudanças já perceptíveis na margem.


Custo do crédito e qualidade: o ajuste começa a aparecer

O custo do crédito permanece pressionado.


A taxa média de juros das concessões atingiu 33,0% ao ano, com o crédito livre em 48,6% ao ano. O spread bancário segue elevado, em torno de 22 p.p., indicando menor apetite a risco.



Ao mesmo tempo, os primeiros sinais de deterioração de qualidade começam a se consolidar.



A inadimplência da carteira total atingiu 4,3%, com o crédito livre em 5,5%, enquanto o comprometimento de renda das famílias avançou para 29,3%. Não se trata de um cenário de estresse, mas a direção é clara.



O ciclo de crédito opera com defasagem. Os dados atuais ainda refletem condições mais favoráveis observadas anteriormente. A tendência, olhando à frente, é de maior seletividade.


Implicações: seletividade e estrutura ganham ainda mais importância

Nesse contexto, a disciplina na originação se torna ainda mais relevante.


A priorização de cedentes com histórico consistente, carteiras bem pulverizadas e estruturas adequadas ao ciclo atual deixa de ser diferencial e passa a ser condição necessária.


É nesse ponto que o crédito estruturado se diferencia.


Subordinação, diversificação de risco e alinhamento de interesses seguem como elementos centrais na proteção dos portfólios — especialmente em um ambiente onde o ciclo começa a mudar na margem.



 
 
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