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Carta do Gestor

Carta Mensal - Junho 2026

  • 13 de jul.
  • 8 min de leitura
Estaria a economia entrando em um novo regime?

Nos últimos anos, poucos cenários pareciam tão improváveis quanto a combinação que observamos atualmente. A economia americana continua crescendo em ritmo saudável, o mercado de trabalho permanece resiliente, os lucros corporativos seguem surpreendendo positivamente e os principais índices acionários renovam máximas históricas. Ao mesmo tempo, a inflação mostra sinais de acomodação e o Federal Reserve volta a discutir a retomada de um ciclo de flexibilização monetária.


Há pouco tempo, o consenso era bastante diferente. A expectativa predominante era de que o forte aperto monetário implementado pelos principais bancos centrais inevitavelmente provocaria uma desaceleração econômica relevante. Afinal, durante décadas aprendemos que controlar a inflação normalmente exigia um período de crescimento mais fraco, aumento do desemprego e redução dos lucros corporativos.


Até aqui, porém, essa dinâmica tem se mostrado muito menos intensa do que se imaginava. Seria este apenas mais um período de otimismo dos mercados ou estaríamos começando a observar uma mudança mais profunda? A rápida difusão da inteligência artificial e de outras tecnologias voltadas ao aumento da produtividade levanta uma hipótese que parecia distante até pouco tempo atrás: a de que a economia global possa estar entrando em um novo regime de crescimento, no qual empresas conseguem produzir mais, com maior eficiência e menor pressão sobre custos. Se essa hipótese estiver correta, parte das relações entre crescimento, inflação e juros poderá se comportar de maneira diferente daquela que aprendemos a esperar ao longo das últimas décadas.


Da promessa para a produtividade

Nos últimos anos, a inteligência artificial dominou boa parte das discussões do mercado financeiro. Em um primeiro momento, a atenção concentrou-se nos investimentos em infraestrutura, semicondutores e capacidade computacional, impulsionando a valorização das grandes empresas de tecnologia. No entanto, talvez esse seja apenas o primeiro estágio de uma transformação muito mais ampla.


A história mostra que as grandes revoluções tecnológicas raramente produzem seus maiores impactos no momento em que surgem. O verdadeiro ganho econômico costuma aparecer quando essas tecnologias deixam de ser uma inovação restrita e passam a ser incorporadas de forma disseminada pelos diferentes setores da economia. Foi assim com a eletricidade, com a internet e com a computação pessoal. A inteligência artificial parece seguir um caminho semelhante.


Os mercados frequentemente superestimam os efeitos imediatos de uma nova tecnologia e subestimam suas consequências de longo prazo. Hoje, grande parte da atenção ainda está concentrada nas empresas responsáveis pelo desenvolvimento da infraestrutura necessária para a IA

Mas, ao longo dos próximos anos, o impacto mais relevante poderá estar na capacidade de milhares de empresas aumentarem sua produtividade por meio da automação de tarefas, da otimização de processos e do uso mais eficiente da informação.


Se essa hipótese se confirmar, as implicações macroeconômicas serão significativas. Um ciclo sustentado de ganhos de produtividade permite que a economia cresça mais rapidamente sem gerar a mesma pressão sobre salários e custos observada em ciclos anteriores. Em outras palavras, parte da combinação que hoje parece excepcional — crescimento resiliente, inflação moderada e lucros corporativos elevados — pode refletir não apenas um momento favorável do ciclo econômico, mas o início de uma mudança estrutural na capacidade produtiva da economia mundial.


Naturalmente, essa hipótese ainda precisa ser confirmada ao longo dos próximos anos. Mas ela ajuda a explicar por que o mercado parece disposto a atribuir múltiplos elevados a empresas expostas à inteligência artificial e, ao mesmo tempo, precificar um cenário econômico mais benigno do que aquele imaginado há apenas alguns anos.


Produtividade não resolve todos os problemas

Se a inteligência artificial realmente inaugurar um novo ciclo de produtividade, seria natural imaginar que essa melhora acabasse se refletindo de forma mais ampla nos mercados financeiros. Entretanto, existe um segmento que continua transmitindo uma mensagem bastante diferente: o mercado de títulos públicos de longo prazo.


Apesar do ambiente favorável para os ativos de risco, as curvas longas de juros permanecem próximas dos níveis mais elevados das últimas décadas. Nos Estados Unidos — mas também em diversas outras economias desenvolvidas — investidores continuam exigindo um prêmio significativo para financiar governos, mesmo diante de uma inflação mais comportada e de expectativas de crescimento resilientes.


Na nossa visão, essa aparente divergência não representa uma contradição. Ela reflete o fato de que duas forças estruturais distintas estão atuando simultaneamente. De um lado, a inteligência artificial pode elevar a produtividade, ampliar o crescimento potencial da economia e sustentar lucros corporativos por um período prolongado. De outro, os governos seguem enfrentando uma dinâmica fiscal cada vez mais desafiadora, marcada por déficits persistentes, aumento do endividamento público e necessidades crescentes de financiamento.


Existe ainda um segundo aspecto que merece atenção. A revolução da inteligência artificial não exige apenas inovação; ela exige capital. A construção de datacenters, a expansão da infraestrutura energética, o desenvolvimento de semicondutores e o aumento da capacidade computacional demandam investimentos de centenas de bilhões de dólares ao redor do mundo. Em outras palavras, justamente quando os governos mais precisam captar recursos para financiar suas dívidas, o setor privado também passa a demandar volumes cada vez maiores de capital para sustentar um novo ciclo de investimentos.



Em qualquer economia, a poupança disponível é um recurso escasso. Quanto maior a demanda simultânea por financiamento do setor público e do setor privado, maior tende a ser o retorno exigido pelos investidores para alocar seu capital. Esse processo, conhecido na literatura econômica como crowding out, costuma ser discutido apenas sob a ótica do impacto da dívida pública sobre o investimento privado. No entanto, o movimento inverso também merece atenção: quando surgem oportunidades de investimento produtivo com elevado potencial de retorno, investidores naturalmente passam a exigir prêmios maiores para direcionar recursos ao financiamento dos governos.


Talvez este seja um dos aspectos menos discutidos do cenário atual. A inteligência artificial não está apenas aumentando a produtividade da economia; ela também está ampliando a demanda global por capital exatamente no momento em que diversas economias convivem com elevados déficits fiscais e níveis historicamente altos de endividamento público. Essa disputa crescente pela poupança global ajuda a explicar por que as taxas de juros de longo prazo permanecem elevadas, mesmo em um ambiente de inflação relativamente controlada.


Se essa leitura estiver correta, o principal desafio dos próximos anos talvez não seja avaliar o potencial da inteligência artificial, mas compreender como seus benefícios econômicos conviverão com uma realidade fiscal significativamente mais desafiadora. É justamente essa combinação que acreditamos estar moldando o comportamento dos mercados atualmente e que continuará influenciando as decisões de alocação ao redor do mundo.

Brasil: a próxima disputa será pelo capital

O desafio brasileiro talvez nunca tenha sido tão claro. Se o próximo ciclo econômico global for marcado por uma corrida por investimentos em produtividade, tecnologia e infraestrutura, o principal diferencial competitivo dos países deixará de ser apenas a disponibilidade de recursos naturais ou o tamanho de seus mercados consumidores. Em um mundo onde o capital volta a ser escasso, reduzir o custo de financiá-lo passa a ser uma vantagem estratégica.


Em nossa avaliação, o elevado custo de capital do Brasil continua sendo consequência, sobretudo, da percepção de risco em relação à trajetória das contas públicas. Ao longo dos últimos anos, defendemos reiteradamente que o principal desafio brasileiro não está na inflação corrente, mas na evolução da dívida pública e na capacidade do país de construir um ambiente de maior previsibilidade fiscal.


Em um cenário global em que empresas e governos disputam cada vez mais intensamente a poupança disponível, essa discussão ganha ainda mais relevância.


Se a inteligência artificial realmente inaugurar um novo ciclo global de investimentos, empresas ao redor do mundo disputarão recursos para financiar projetos ligados à tecnologia, infraestrutura digital, energia e aumento de produtividade. Países que conseguirem reduzir seus prêmios de risco estrutural estarão mais bem posicionados para captar parte desse fluxo de investimentos. Preservar a sustentabilidade fiscal deixa, portanto, de ser apenas uma condição para permitir a redução dos juros. Passa a ser um elemento essencial para aumentar a competitividade da economia brasileira em um ambiente internacional cada vez mais seletivo.


Continuamos acreditando que existe espaço para uma redução gradual da taxa Selic ao longo do atual ciclo monetário, especialmente diante do elevado nível dos juros reais observados hoje. Entretanto, essa trajetória dependerá, em grande medida, da evolução das expectativas fiscais e da capacidade de estabilização da dinâmica da dívida pública. Em um mundo onde o capital voltou a ser escasso e altamente seletivo, crescimento, produtividade e responsabilidade fiscal deixam de ser temas independentes e passam a representar diferentes dimensões do mesmo desafio econômico.


Os mercados começam a precificar esse novo ambiente

Embora ainda seja cedo para afirmar que estamos diante de uma mudança estrutural na economia global, diversos movimentos observados nos mercados ao longo dos últimos meses parecem caminhar na direção da tese apresentada ao longo desta carta.


Nos Estados Unidos, o fluxo de capital continua concentrado nas empresas ligadas à inteligência artificial e à infraestrutura tecnológica. Os principais índices acionários seguem próximos das máximas históricas, sustentados por resultados corporativos robustos e por uma economia que continua surpreendendo positivamente em termos de crescimento e geração de empregos. Ao mesmo tempo, a inflação segue convergindo gradualmente para níveis mais confortáveis, reforçando a percepção de que ganhos de produtividade poderão compensar parte das pressões inflacionárias dos próximos anos.


Por outro lado, o mercado de renda fixa continua transmitindo uma mensagem diferente. Os títulos públicos americanos de 30 anos permanecem negociando próximos de 5% ao ano, patamar que não era observado de forma consistente desde antes da crise financeira de 2008. Em nossa visão, esse comportamento reflete menos preocupações com a inflação de curto prazo e mais a necessidade crescente de financiamento dos governos, em um ambiente de déficits fiscais persistentemente elevados.



No Brasil, essa dinâmica torna-se ainda mais evidente. Apesar da retomada do ciclo de flexibilização monetária, os juros reais implícitos nas NTN-Bs voltaram a superar 8% ao ano em praticamente toda a curva de vencimentos, colocando o país entre aqueles com o maior custo real de capital do mundo. Em nossa avaliação, esse patamar representa um obstáculo relevante ao investimento produtivo e reforça a importância de uma agenda voltada à estabilização da dívida pública e ao fortalecimento da credibilidade fiscal.



O mercado de crédito também passou a refletir esse ambiente. A abertura recente dos spreads em diversos segmentos reforça que o custo do capital voltou a exercer um papel central na precificação dos ativos. Não interpretamos esse movimento como uma oportunidade generalizada de investimento, mas como uma reprecificação compatível com um ambiente de maior seletividade e menor abundância de liquidez.


Posicionamento

Embora continuemos construtivos com o cenário para ativos de risco, acreditamos que o próximo ciclo econômico será marcado por uma maior dispersão entre vencedores e perdedores e por um custo de capital estruturalmente mais elevado do que aquele observado na última década. Nesse ambiente, seguimos priorizando qualidade, disciplina na alocação e estruturas capazes de atravessar diferentes

fases do ciclo econômico.


Na renda fixa local, continuamos privilegiando ativos pós-fixados, que oferecem boa remuneração em um ambiente de juros ainda elevados. No crédito privado, mantemos preferência por operações estruturadas, com garantias robustas, mecanismos de subordinação e forte alinhamento de interesses, em detrimento de exposições que dependam apenas da compressão dos spreads para gerar retorno.


Na renda variável, seguimos enxergando melhores oportunidades no mercado americano, especialmente em empresas de alta qualidade, crescimento estrutural e forte capacidade de geração de caixa, que deverão continuar se beneficiando do avanço da inteligência artificial e dos ganhos de produtividade. No Brasil, permanecemos seletivos, mas entendemos que diversas empresas de elevada qualidade seguem negociando a múltiplos bastante atrativos, oferecendo uma combinação interessante entre valor e potencial de crescimento no longo prazo.


Por fim, permanecemos mais cautelosos com ativos prefixados e indexados à inflação de prazos muito longos.

Embora reconheçamos que os níveis atuais de juros sejam bastante elevados, entendemos que o estágio do ciclo de endividamento das principais economias e a crescente necessidade global de financiamento recomendam prudência na alocação em ativos com duration elevada. Preferimos aguardar sinais mais claros de estabilização das dinâmicas fiscais antes de aumentar significativamente esse tipo de exposição.


Em um mundo onde a produtividade volta a acelerar, acreditamos que a qualidade continuará sendo o principal diferencial — seja na escolha das empresas, na estrutura das operações de crédito ou na alocação de capital entre países.


Gestão de Patrimônio

Em um cenário que exige cada vez mais leitura de mercado e disciplina na alocação, a Gestão de Patrimônio da Netz é liderada por Francisco Kops, CFA, com mais de 20 anos de experiência. À frente da estratégia, o gestor imprime consistência e visão de longo prazo às decisões.


O time é formado por Ewerton Leite - Portfolio Management, Anna Carolina Proença, CEA - Investor e Lucas Caumo, CFG - Gestão, atuando de forma integrada na construção de portfólios robustos e aderentes aos diferentes perfis de clientes.


Mais do que acompanhar o mercado, a área reforça o posicionamento da Netz com uma gestão técnica, criteriosa e orientada à geração de valor no tempo.



 
 
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