Carta Mensal - Janeiro 2026
- 10 de fev.
- 8 min de leitura
Resumo Executivo
Janeiro é, historicamente, o mês em que grandes investidores redefinem estratégias, rebalanceiam portfólios e estabelecem as bases de alocação para o ano. Nesse contexto, os movimentos observados nas primeiras semanas de 2026 merecem atenção especial.
A combinação entre a queda do dólar, a alta expressiva de metais preciosos, a abertura das taxas longas nos Estados Unidos e o bom desempenho de bolsas de mercados emergentes - com destaque para o Brasil - sugere uma reprecificação de riscos que vai além do ajuste tático de curto prazo e aponta para mudanças de natureza mais estrutural.
No Brasil, o Banco Central sinalizou pela primeira vez, com maior clareza, a entrada em um ciclo de cortes de juros, ao passo que a inflação esperada para 2026 recuou para abaixo de 4% no Relatório Focus. Esse pano de fundo, somado ao forte fluxo estrangeiro, criou condições favoráveis para ativos domésticos, mesmo com sinais de arrefecimento da economia.
Do ponto de vista de alocação, esse ambiente reforça a nossa preferência por retorno via fluxo, estrutura e proteção com especial destaque para crédito estruturado e renda fixa local bem selecionada.
Um início de ano que diz mais do que parece
Mais do que um mês de ajustes técnicos, janeiro costuma ser o período em que investidores globais revisitam premissas, redefinem alocações e expressam suas convicções para o ciclo à frente. Em 2026, a dinâmica observada nas primeiras semanas do ano foi particularmente clara nesse sentido. Não se tratou de um movimento isolado, mas de um conjunto coerente de sinais que, em conjunto, ajudam a revelar como o risco está sendo precificado no início deste novo ciclo.
Em poucas semanas, vimos quatro movimentos relevantes acontecendo ao mesmo tempo:
Queda significativa do dólar
Alta impressionante de metais preciosos, como ouro e prata
Aumento das taxas longas americanas (curva empinando)
Alta das bolsas em mercados emergentes, incluindo Brasil
Esses movimentos, em conjunto, contam uma história: o mercado não está simplesmente "buscando risco"; está, de forma crescente, buscando proteção para um ambiente global mais endividado, mais politizado e fiscalmente mais frágil.
Desempenho das moedas de diversas geografias em 2026

Dólar: fraqueza que não é aversão a risco
A queda do dólar neste início de ano chama atenção pelo contexto. Historicamente, em ambientes de incerteza, o dólar tende a ser beneficiado por seu papel de moeda de reserva. Em janeiro, porém, a moeda perdeu força mesmo sem a presença de um choque global clássico de risco.
Desempenho das bolsas de diversas geografias em 2026

Essa dinâmica sugere que a fraqueza do dólar não foi apenas um fenômeno técnico ou de curto prazo. O movimento ganhou tração quando dois vetores passaram a ser precificados com mais intensidade:
Ataques e questionamentos à independência do Federal Reserve: Mesmo que o banco central americano continue operando com autonomia, o simples fato de sua independência entrar no debate político introduz ruído institucional e reduz previsibilidade. Confiança depende de regras e instituições.
Aumento dos riscos geopolíticos: A volta do tema geopolítico ao centro do debate reforça a percepção de um mundo menos coordenado e mais sujeito a decisões políticas abruptas. Em ambientes assim, ativos "promessas de pagamento" passam a exigir um prêmio maior.
O resultado desse conjunto é uma reprecificação gradual de confiança: o dólar não deixa de ser a moeda dominante do sistema, mas perde parte do seu caráter de “porto seguro automático” quando o risco institucional e geopolítico sobe.
Curva americana empinando: o prêmio fiscal volta ao palco
O segundo sinal relevante do mês foi a alta das taxas longas nos Estados Unidos. Vale enfatizar: nem toda abertura de juros longos tem o mesmo significado. Em ciclos tradicionais, taxas longas sobem por melhora de crescimento esperado ou por reprecificação do nível terminal da política monetária. O que vimos em janeiro tem um componente crescente de “prêmio de prazo” associado a preocupações fiscais.
Em outras palavras: parte do mercado parece menos preocupada com o “próximo movimento” de política monetária e mais preocupada com o custo de financiar dívidas públicas em países com problemas fiscais estruturais. Quando a trajetória fiscal se deteriora, o investidor exige mais retorno para travar capital por longos horizontes, e o prêmio de prazo reaparece.
Prêmio de termo e nível da curva longa dos EUA

Esse fenômeno não é exclusivo dos EUA. O Japão, por exemplo, também dá sinais de reprecificação: em uma economia historicamente associada a juros baixos, a percepção de endividamento estrutural elevado e baixa margem de manobra coloca pressão sobre o custo de financiamento soberano.
É aqui que surge uma distinção importante para o investidor: risco monetário pode ser administrado no curto prazo; risco fiscal, por definição, é mais difícil de resolver, pois depende de escolhas políticas e de capacidade de ajuste ao longo de anos.
Ativos reais: do hedge inflacionário ao hedge fiscal/institucional
A alta de ouro e prata em um ambiente de juros longos ascendentes é, por si só, um sinal importante. Em modelos tradicionais, metais preciosos tendem a ter relação inversa com juros reais: quando o retorno “livre de risco” sobe, o custo de oportunidade do ouro aumenta. Janeiro
contrariou esse padrão.
Isso sugere que o fluxo para metais preciosos não foi apenas uma leitura de inflação. Há um
componente crescente de proteção patrimonial associado a um mundo de alto endividamento,
baixo espaço fiscal e maior interferência política em temas econômicos. Em termos simples: o investidor está buscando ativos que não dependem de contrapartes, de promessas soberanas ou de decisões políticas para preservar valor.
Esse movimento é reforçado por uma realidade incontornável: o mundo está endividado, e a perspectiva fiscal, em várias economias centrais, é pior do que parecia. Ajustes fiscais profundos são politicamente custosos, o que eleva a probabilidade de soluções “pela margem” — mais inflação, mais repressão financeira, mais tributação, ou combinações dessas alternativas ao longo do tempo.
Sem alternativa real ao dólar, o ouro recebe mais fluxo
Apesar de toda a discussão sobre desdolarização, a realidade é que não existe hoje uma alternativa funcional ao dólar como moeda global. Nenhuma outra moeda combina liquidez, profundidade de mercado, arcabouço jurídico e capacidade de absorver fluxos globais de forma comparável.
É exatamente por isso que o ouro (e, em menor grau, outros ativos reais) acabam recebendo um fluxo maior do que o previsto por modelos clássicos. O investidor não “troca” o dólar por outra moeda; ele reduz concentração de risco monetário e fiscal buscando um ativo que não seja passivo de ninguém.
O ouro, portanto, não substitui o dólar — ele compensa suas fragilidades. Em um ambiente em que a confiança institucional é testada, o prêmio fiscal volta e a geopolítica adiciona ruído, essa busca por compensação tende a ganhar relevância.

Emergentes: beneficiários naturais do novo arranjo
A combinação de dólar mais fraco e maior busca por retorno real cria um ambiente mais construtivo para mercados emergentes. Quando a moeda americana perde força, o financiamento em dólar fica relativamente menos restritivo e o apetite por risco fora do eixo desenvolvido tende a aumentar.
Além disso, emergentes com juros reais elevados e fundamentos razoáveis passam a oferecer uma proposta de valor rara no mundo: carrego relevante com alguma margem de proteção. Isso ajuda a explicar o bom desempenho relativo de bolsas emergentes neste início de ano, com o Brasil figurando entre os destaques.
Brasil: inflexão monetária, fluxo estrangeiro
No Brasil, janeiro trouxe um conjunto de sinais que há muito não apareciam de forma tão alinhada. Pela primeira vez em um ciclo prolongado de juros elevados, o Banco Central sinalizou com mais clareza que o próximo movimento relevante da política monetária deverá ser na direção de cortes.
Esse sinal ganhou força com a dinâmica das expectativas: pela primeira vez em muito tempo, a projeção de inflação para 2026 no Relatório Focus recuou para abaixo de 4%. Mais importante do que o número em si é a mensagem: a ancoragem das expectativas começa a se tornar mais tangível — condição necessária para um ciclo de flexibilização consistente.
Em paralelo, o país recebeu uma enxurrada de fluxo estrangeiro, com destaque para a bolsa. Esse movimento reflete tanto o ambiente global mais favorável a emergentes quanto fatores domésticos: juros reais altos, valuations ainda atrativos em diversos setores e uma percepção de assimetria positiva na transição do ciclo monetário.
Diferencial de juros vs. EUA

Ao mesmo tempo, a economia continua dando sinais de arrefecimento. Em nossa leitura, esse ponto é central: a desaceleração é parte do mecanismo de transmissão do aperto monetário — e, portanto, reforça a necessidade de queda de juros à frente. O mercado, diante disso, acelerou as apostas no início e no ritmo do ciclo de cortes.
Por hora, a eleição ainda não entrou plenamente no radar e no preço dos ativos. O foco continua sendo fluxo, juros e cenário externo. Historicamente, porém, o tema político tende a emergir de forma abrupta e a elevar a volatilidade de maneira significativa. Assim, embora ainda pouco refletida em preços, a volatilidade futura “promete” à medida que o calendário avance.
Crédito privado no Brasil: crescimento mais lento e seletividade
O mercado de crédito privado no Brasil segue resiliente, mas entrou claramente em uma nova fase. Os dados mais recentes apontam para desaceleração marginal na expansão do crédito, custos financeiros elevados e aumento gradual da inadimplência, especialmente em segmentos mais sensíveis ao ciclo econômico.
Crescimento do crédito a famílias e empresas

Inadimplência do sistema financeiro nacional

Inadimplência de recursos livres

A expansão observada nos últimos meses foi sustentada, em grande parte, por títulos públicos e pelo sistema financeiro tradicional, enquanto o crédito às empresas apresentou crescimento mais moderado. Ao mesmo tempo, o crédito às famílias segue avançando, mas com sinais claros de pressão sobre endividamento e comprometimento de renda — o que naturalmente impõe limites ao crescimento futuro.
Juros altos mudam o jogo do crédito
Com taxas de juros ainda em patamares elevados, o custo de financiamento se tornou mais restritivo, e o mercado passou a diferenciar com mais clareza quem consegue estruturar risco de quem depende apenas de balanço. O aumento das taxas médias de juros e dos spreads bancários reflete:
Maior percepção de risco
Crescente seletividade das instituições financeiras
Menor tolerância a estruturas frágeis ou pouco transparentes
Taxas de Juros

Nesse contexto, o crédito mal precificado tende a cobrar seu preço, enquanto estruturas bem desenhadas ganham relevância.
FIDCs: uma resposta natural
É justamente nesse cenário que os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios ganham ainda mais protagonismo. Em vez de depender de linhas bancárias tradicionais, empresas e setores com fluxos previsíveis passaram a acessar o mercado por meio da antecipação de recebíveis, com maior eficiência financeira e melhor alinhamento de risco.
Transformar fluxos futuros em capital presente
Reduzir dependência do crédito bancário tradicional
Estruturar operações com garantias, subordinação e governança
Ajustar risco e retorno de forma mais precisa
Mais do que uma alternativa tática, o crédito estruturado se consolida como uma solução estrutural em um ambiente de juros elevados e maior exigência de disciplina.
A evolução dos lastros: o exemplo do setor esportivo
Um exemplo claro dessa evolução é o setor esportivo, em especial o futebol profissional. Tradicionalmente visto como um segmento de difícil acesso ao crédito, o setor passou a se financiar de forma mais eficiente por meio da securitização de receitas recorrentes e juridicamente vinculadas.
Receitas como: (i) Direitos de transmissão; (ii) Contratos de patrocínio; (iii) Programas de sócio-torcedor; (iv) Bilheteria e (v) Venda de atletas passaram a ser tratadas como ativos financeiros, com previsibilidade de fluxo e capacidade de estruturação.
Esse movimento ilustra bem a versatilidade dos FIDCs: não se trata apenas de financiar setores tradicionais, mas de adaptar estruturas a diferentes perfis de ativo, mantendo controle de risco, governança e monitoramento.
Síntese: menos volume, mais qualidade
O cenário atual de crédito no Brasil favorece menos a expansão indiscriminada e mais a qualidade da estrutura. Em um ambiente de desaceleração econômica, juros elevados e aumento gradual da inadimplência, o retorno passa a vir da engenharia de risco, não do crescimento de volume.
Essa leitura está totalmente alinhada à nossa estratégia: priorizar operações com lastro claro, fluxo previsível, proteção estrutural e adequada remuneração do risco assumido.
Conclusão
Janeiro foi um mês que ajudou a esclarecer o pano de fundo do ciclo. O mercado começa a precificar, de maneira mais clara, um mundo com maior prêmio fiscal, mais ruído institucional e geopolítico, e um investidor mais atento à preservação patrimonial. A alta de ativos reais e a abertura das taxas longas são sinais desse processo.
No Brasil, a inflexão monetária se aproxima em um ambiente no qual o fluxo estrangeiro sustenta os preços de ativos, mesmo com sinais de desaceleração da economia real. Esse quadro cria oportunidades, mas também reforça a necessidade de disciplina, especialmente à medida que a volatilidade política se aproxima.
Seguimos fiéis ao nosso princípio fundamental: preservar capital, gerar retorno real e atravessar ciclos com solidez. Em nossa leitura, a melhor forma de capturar retorno neste ambiente não é aumentar risco,
mas estruturá-lo melhor — com foco em fluxo, proteção e seleção criteriosa de ativos.