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Carta do Gestor

Carta Mensal - Dezembro 2025

  • Foto do escritor: Rodrigo Seixas
    Rodrigo Seixas
  • 31 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: 11 de jan.

“O maior risco em investimentos não é a volatilidade dos preços, mas a possibilidade de uma perda permanente de capital.” — Howard Marks


Perspectivas para 2026 e o papel estrutural dos FIDCs nas carteiras


O ano de 2025 marcou um ponto de inflexão relevante no ciclo econômico global. Após um longo e intenso período de aperto monetário, os principais bancos centrais iniciaram um movimento gradual de flexibilização, sinalizando que o pico do ciclo de juros f icou para trás. Ainda que os níveis de juros reais permaneçam elevados no curto prazo, a direção da política monetária passou a ser o principal vetor de alocação de ativos.


Esse movimento trouxe uma mudança importante na assimetria de risco dos mercados. O foco deixou de ser exclusivamente o nível absoluto das taxas de juros e passou a incorporar, de forma mais explícita, a trajetória futura e seus impactos sobre moedas, ativos reais e mercados financeiros.


Juros reais ainda altos, mas com nova assimetria de risco


O ambiente externo para 2026 tende a permanecer relativamente benigno na nossa visão. Do ponto de vista macroeconômico, o nível dos juros reais globais segue elevado em termos históricos, especialmente quando analisado isoladamente. No entanto, para a precificação dos ativos, o que importa é a trajetória esperada à frente.


Em um ambiente em que o custo de capital deixa de subir e passa a convergir lentamente para patamares mais neutros, ativos com maior duration, ativos reais e estratégias de carrego passam a apresentar uma relação risco-retorno mais atrativa. O custo de oportunidade de permanecer excessivamente defensivo diminui, ao passo que o prêmio por assumir risco de forma seletiva tende a aumentar.


Debasement monetário, desafios fiscais e o papel dos ativos reais


O início do ciclo de flexibilização monetária ocorre em um contexto particularmente sensível do ponto de vista fiscal. As principais economias do mundo convivem com níveis elevados de endividamento público, déficits persistentes e restrições políticas para ajustes f iscais mais profundos. Essa combinação reforça a narrativa de debasement monetário, com implicações diretas para o valor real das moedas fiduciárias — em especial do dólar.


Ao longo de 2025, esse movimento já começou a se refletir na performance dos mercados. Bolsas globais apresentaram resultados expressivos, o ouro voltou a ocupar espaço como reserva de valor e as commodities recuperaram protagonismo como instrumentos de proteção contra a perda do poder de compra das moedas. Ou seja, uma valorização mais nítida dos ativos reais.


Para 2026, nossa expectativa é de continuidade desse ambiente externo relativamente benigno, ainda que com maior dispersão de riscos entre regiões e classes de ativos. A combinação entre uma trajetória de juros reais mais baixos nas economias centrais e um dólar estruturalmente mais fraco tende a seguir favorecendo, na margem, os mercados emergentes, especialmente aqueles que ainda oferecem prêmio de carrego elevado.


A bolsa americana, em particular, enfrenta desafios adicionais relacionados a valuation, crescimento e sustentabilidade fiscal, o que tende a estimular uma alocação mais seletiva e uma diversificação maior das carteiras globais, com espaço para realocação de capital em direção a mercados emergentes e estratégias fora do eixo tradicional dos Estados Unidos.


Como contraponto a esse cenário, é importante reconhecer que os Estados Unidos podem voltar a exercer maior poder de atração sobre o capital global. Após um longo período de política monetária restritiva, a combinação entre ciclos monetário e fiscal potencialmente mais expansionistas tende a beneficiar segmentos mais tradicionais da economia americana, para além do setor de tecnologia. Caso esse movimento se traduza em uma recuperação mais ampla do crescimento doméstico, os EUA podem voltar a concentrar fluxos relevantes de capital, reduzindo, ao menos temporariamente, o apetite relativo por mercados emergentes e a tese de dólar fraco.


Brasil: juros reais extremos em um mundo em transição


Enquanto o mundo iniciou sua virada monetária em 2025, o Brasil permaneceu operando com uma das políticas monetárias mais restritivas do mundo. O país manteve juros reais extremamente elevados, refletindo preocupações fiscais, inflacionárias e de credibilidade institucional.


Ainda assim, mesmo nesse ambiente desafiador, ativos de risco no Brasil apresentaram desempenho relevante ao longo do ano. A bolsa se beneficiou de valuations historicamente atrativos e da expectativa de normalização futura da política monetária, enquanto alguns ativos de renda fixa pré-fixados começaram a capturar esse movimento de forma antecipada.


Para 2026, acreditamos que o Brasil deve finalmente iniciar seu ciclo de queda de juros. A atividade econômica mostra sinais claros de desaceleração, a inflação segue em trajetória mais benigna e o câmbio relativamente mais valorizado contribui para um ambiente inflacionário mais controlado. No entanto, o processo tende a ser gradual e cercado de cautela, especialmente diante do cenário eleitoral.


Nesse contexto, mantemos uma postura seletiva para ativos de maior duration, como a bolsa e a parte longa da curva de juros reais. Ao mesmo tempo, reforçamos a importância de estratégias capazes de combinar carrego elevado, previsibilidade e proteção estrutural, reduzindo a dependência de movimentos táticos de mercado.


Alinhamento de interesses e disciplina ao longo do ciclo


Outro diferencial central dos FIDCs é o alinhamento de interesses. Em estruturas bem desenhadas, os responsáveis pela originação e gestão mantêm capital próprio investido nas cotas subordinadas, o que incentiva disciplina de crédito, rigor na seleção dos ativos e acompanhamento constante da carteira de recebíveis.


No crédito privado tradicional, a decisão de endividamento é tomada pela empresa emissora, frequentemente orientada por objetivos de curto prazo, como expansão, reestruturação de passivos e bonus de executivos, sem alinhamento direto com o investidor f inal. Essa assimetria de incentivos tende a se tornar mais evidente em momentos de estresse econômico.


Volatilidade, previsibilidade e retorno ajustado ao risco


Do ponto de vista de volatilidade, os FIDCs também apresentam vantagens relevantes. A ausência de marcação a mercado na maior parte das estruturas permite uma trajetória de rentabilidade mais estável ao longo do tempo, desde que não ocorram eventos de crédito. Já o crédito privado tradicional está sujeito à marcação a mercado e pode apresentar oscilações relevantes mesmo sem eventos de crédito, em função de mudanças na percepção de risco, spreads e liquidez.


Nos FIDCs recomendados pela Netz, as cotas seniores contam com níveis de subordinação entre 20% e 40% e oferecem remuneração entre CDI + 4% e CDI + 6%. No mercado tradicional de crédito privado, retornos dessa magnitude costumam estar associados a ativos com risco de crédito mais elevado ou a estruturas com menor proteção ao investidor.


FIDCs em um cenário de queda de juros: o spread como aliado


Em um cenário de queda de juros, como o que projetamos para 2026, os FIDCs apresentam uma vantagem adicional particularmente relevante. Um ativo que hoje remunera CDI + 5%, com o CDI em atuais ~15%, equivale a 125% do CDI. À medida que o CDI recua, como por exemplo, para 10%, esse mesmo ativo passa a entregar algo próximo de 150% do CDI, sem que o investidor precise assumir risco adicional.


Essa parcela “pré-fixada” do retorno atua como uma proteção natural contra a queda dos juros, preservando — e muitas vezes ampliando — o retorno relativo da carteira ao longo do ciclo. Enquanto o CDI recua, o spread do FIDC segue trabalhando a favor do investidor.


Crédito no Brasil: expansão mais contida e seletiva


Os dados mais recentes do Banco Central indicam que o mercado de crédito no Brasil segue em expansão, porém em ritmo mais moderado. O crédito ampliado ao setor não f inanceiro alcançou cerca de 161% do PIB, com crescimento anual de 11,2%, impulsionado principalmente pela evolução do estoque de títulos de dívida. Já o crédito concedido pelo Sistema Financeiro Nacional cresce em ritmo mais lento (~9,5% em 12 meses), sinalizando condições financeiras ainda restritivas e maior seletividade por parte dos bancos.



Esse movimento é consistente com um ambiente de juros elevados, no qual a expansão do crédito ocorre de forma mais cautelosa e menos homogênea entre os segmentos.


Empresas e famílias: dinâmicas distintas


No segmento corporativo, o crescimento do crédito tem sido mais contido, com maior protagonismo do mercado de capitais. O crédito às empresas avança cerca de 5% em 12 meses, com destaque para os títulos de dívida corporativa (~14% a.a.), enquanto linhas bancárias tradicionais, como capital de giro e desconto de recebíveis, mostram estabilidade ou retração marginal.


Já o crédito às famílias segue crescendo em ritmo mais elevado (~11% a.a.), sustentado principalmente por crédito pessoal, financiamento de veículos e cartão de crédito. Esse crescimento mais robusto vem acompanhado de aumento nos indicadores de endividamento (~49% da renda) e de comprometimento financeiro (~29% da renda), reforçando a necessidade de cautela na análise de risco.



Juros, spreads e implicações para a alocação em crédito


Apesar da expansão moderada do crédito, o custo permanece elevado. As taxas médias das novas concessões seguem em patamar alto (~32% a.a. no agregado), com spreads bancários ainda elevados (~21 p.p.). A inadimplência, por sua vez, permanece relativamente estável (~3,8% no consolidado), ainda que acima dos níveis observados no ano anterior.


Esse conjunto de dados reforça um ambiente em que o crédito continua disponível, mas caro e seletivo. Em cenários como esse, estratégias que privilegiam estrutura, pulverização de risco, garantias e mecanismos de proteção tendem a oferecer uma relação risco-retorno mais eficiente, especialmente quando comparadas a exposições tradicionais de crédito sem proteção estrutural.


Conclusão


Entramos em 2026 com um cenário que combina transição de ciclo, normalização gradual da política monetária e maior seletividade na alocação de ativos. Em um ambiente como esse, estratégias que oferecem carrego elevado, previsibilidade, proteção estrutural e alinhamento de interesses tendem a se destacar.


Os FIDCs ocupam esse espaço de forma natural. Mais do que uma alocação tática, eles representam um pilar estrutural das carteiras recomendadas pela Netz, especialmente em um país que ainda convive com juros reais elevados e um histórico recorrente de volatilidade macroeconômica.


Seguiremos atentos às mudanças do cenário e comprometidos com uma gestão disciplinada, buscando capturar oportunidades de forma consistente e alinhada aos interesses de longo prazo de nossos clientes.



 
 
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